O que de melhor li até agora sobre Gaza são os artigos que reproduzo abaixo. Eles defendem posições opostas. Mas defendem muito bem. Dois trabalhos exemplares.
Extremismo é o pior inimigo palestino
De Bernard-Henri Lévy, filósofo francês, distribuído pelo New York Times Syndicate e publicado na Folha de São Paulo em 12 de janeiro. Tradução de Paulo Migliacci
Por não ser especialista em assuntos militares, me absterei de julgar se o bombardeio israelense a Gaza poderia ter sido mais direcionado, menos intenso. E depois de décadas em que não me vi capaz de distinguir entre os bons mortos e os maus mortos ou, como Camus costumava dizer, entre as "vítimas suspeitas" e os "executores privilegiados", sinto-me também profundamente perturbado pelas imagens de crianças palestinas que foram mortas. Isso posto, e levando em conta que certos veículos de mídia se deixaram outra vez carregar pelos ventos da sandice -como costuma ser o caso sempre que Israel está envolvido-, gostaria de lembrar a todos alguns fatos:
1. Nenhum outro governo, nenhum país -a não ser o vilipendiado Israel, sempre demonizado- toleraria ter suas cidades como alvo de milhares de obuses a cada ano. A coisa mais notável nisso tudo, a verdadeira surpresa, não é a "brutalidade" de Israel, mas sim, literalmente, sua paciência.
2. O fato de que os mísseis Qassam e agora Grad do Hamas tenham causado tão poucas mortes não prova que são artesanais, inofensivos nem nada assim, mas sim que os israelenses se protegem, que vivem emparedados nas cavernas de seus edifícios, em abrigos: uma experiência fantasmagórica, suspensa, em meio ao som das sirenes e explosões. Já estive em Sderot; sei do que falo.
3. O fato de que, inversamente, o bombardeio israelense tenha causado tantas vítimas não significa, como proclamam zangadamente os oponentes, que Israel esteja envolvido em um "massacre" deliberado, mas que os líderes de Gaza optaram pela atitude oposta e estão expondo sua população, confiando na velha tática do "escudo humano". O que significa que o Hamas, como o Hizbollah dois anos atrás, está instalando seus postos de comando, suas casamatas, seus arsenais, nos porões de edifícios residenciais, hospitais, escolas, mesquitas. Eficiente, mas repugnante.
4. Há uma diferença crucial entre os combatentes que aqueles que desejam ter uma ideia "correta" sobre a tragédia e sobre as maneiras de pôr fim a ela precisam admitir. Os palestinos abrem fogo contra cidades, ou, em outras palavras contra civis (o que a lei internacional define como "crime de guerra"); os israelenses tomam por alvo objetivos militares e causam, sem que o desejem, baixas civis horríveis (o que a linguagem da guerra define como "dano colateral" e, embora terrível, indica uma verdadeira assimetria estratégica e moral).
5. Porque precisamos colocar os pingos nos is, recordemos uma vez mais um fato que a imprensa pouco citou e do qual não conheço precedente em qualquer outra guerra ou da parte de qualquer outro exército. Durante a ofensiva aérea, o Exército israelense apelou constantemente a moradores de Gaza que vivem perto de alvos militares para que deixassem essas áreas. Um ministro israelense disse que 100 mil pessoas foram contatadas. Isso não altera o desespero de famílias cujas vidas foram dilaceradas pela carnificina, mas não se trata de um detalhe totalmente desprovido de sentido.
6. Por fim, quanto ao famoso bloqueio total imposto a um povo faminto ao qual falta tudo nesta crise humanitária "sem precedentes": uma vez mais, a definição não é factualmente correta. Desde o começo da ofensiva terrestre, os comboios de assistência humanitária vêm cruzando incessantemente a passagem de Kerem Shalom. Segundo o "New York Times", em 31 de dezembro cerca de cem caminhões transportando suprimentos de comida e remédios entraram no território. E aproveito para invocar, nem que seja apenas para preservar a lembrança dessa verdade (pois creio que seria desnecessário dizê-lo, ou talvez seja melhor dizê-lo de vez), o fato de que os hospitais israelenses continuam a receber e tratar palestinos feridos, a cada dia. Nossa esperança deve ser a de que os combates se encerrem rapidamente. E que, ainda mais rápido, esperemos igualmente, os comentaristas recuperem o bom senso.
Eles descobrirão, quando isso acontecer, que Israel cometeu muitos erros ao longo de muitos anos (oportunidades perdidas, a longa negação quanto às aspirações nacionais palestinas, unilateralismo), mas que os piores inimigos dos palestinos são os líderes extremistas que jamais quiseram a paz, jamais quiseram um Estado e jamais pensaram em criar um país para o seu povo, ao qual preferem ver como instrumento e como refém. (Considerem a sinistra imagem do líder supremo do Hamas, Khaled Meshaal, que, quando a escala da resposta israelense tão ardentemente desejada ficava clara, limitou-se a declarar uma retomada das missões suicidas -e isso de seu confortável exílio e sua sinecura generosa em Damasco.) Restará uma de duas opções.
Ou os líderes do Hamas restabelecem a trégua que violaram, e aproveitam para declarar nula uma agenda que se baseia na pura rejeição à "entidade sionista" -e ao fazê-lo se reintegrem ao vasto partido que favorece um compromisso e que (Deus seja louvado) jamais deixou de avançar na região-, permitindo que a paz seja estabelecida; ou eles continuarão a encarar o sofrimento dos civis palestinos apenas em termos das paixões que isso acalenta, de seu ódio insano, niilista, além das palavras. Se for este o caso, serão não apenas os israelenses, mas os palestinos, que precisarão ser liberados da escura sombra do Hamas.
Por onde ando, sempre as mesmas velhas idéias sobre o Oriente Médio
Robert Fisk, correspondente de guerra britânico, publicado pelo The Independent em 10 de janeiro e traduzido por Caia Fittipaldi
Tudo depende de onde você mora. A geografia da propaganda de Israel foi inventada para demonstrar que os frouxos – os liberaizinhos que vivem nas nossas cidades seguras, ocidentais – não entendem o horror dos 12 (já agora 20) mortes de israelenses em dez anos, os milhares de Qassams e o inimaginável trauma e o stress de morar perto de Gaza. Esqueçam os palestinos assassinados.
Viajar pelos dois lados do Atlântico nas últimas semanas tem sido experiência instrutiva (para não dizer estranhamente repetitiva).
Então lhes conto. Eu estava em Toronto. Abri o National Post, jornal de direita, e dei com Lorne Gunter tentando explicar aos leitores como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. "Imagine que você mora em Don Mills, subúrbio de Toronto," escreve Gunter, "e o pessoal de Scarborough – a dez quilômetros dali – dispara praticamente 100 foguetes por dia no seu quintal, na escola dos seus filhos, no supermercado, no consultório do seu dentista…"
Entenderam? Claro que o pessoal de Scarborough é pobre, imigrantes recém chegados – muitos do Afeganistão – , e o pessoal de Don Mills é de classe média, muitos muçulmanos. E, até aí, sem falar em cortar a facão a sociedade multicultural do Canadá, para explicar que Israel tem toda a razão quando massacra os palestinos em resposta aos foguetes.
Depois, já em Montreal, passo os olhos no jornal La Presse, em francês, de dois dias antes. E, claro, lá está matéria assinada por 16 destacados intelectuais pró-Israel, escritores, economistas, professores, na labuta para explicar como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. "Imagine por um instante que as crianças de Longueil vivam sob permanente terror, dia e noite, que as lojas, os escritórios, hospitais, escolas sejam alvo permanente de terroristas que vivam em Brossard." Longueil, claro, é uma comunidade de imigrantes muçulmanos negros, afegãos, iranianos. Fiquei sem saber quem seriam os "terroristas" de Brossard.
Mais dois dias, estou em Dublin. Abro o The Irish Times e lá está uma carta do embaixador de Israel na Irlanda, dedicado a explicar ao povo da República da Irlanda como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. Já adivinharam? Acertaram. "O que vocês fariam", Zion Evrony pergunta aos leitores, "se Dublin vivesse sob bombardeio de 8.000 foguetes e morteiros…" E por aí a coisa vai.
Desnecessário dizer que nenhum dos supracitados jamais pergunta como alguém se sentiria se morasse em Don Mills ou Brossard ou Dublin e vivesse sob ataque massivo, eterno, incansável de jatos supersônicos, tanques Merkava e milhares de soldados cujas bombas e mísseis destroçam em pedaços 40 mulheres e crianças à frente de uma escola, assassinam famílias inteiras que dormem em suas próprias camas e que, em uma semana, mataram 200 civis e fizeram 600 feridos.
Na Irlanda, minha explicação preferida para o banho de sangue veio de meu velho conhecido, Kevin Myers. "As mortes em Gaza são, é claro, chocantes, horríveis, indizíveis", chora ele. "Embora nada de compare às mortes que haveria em Israel, se se deixasse o Hamas fazer o que quisesse." Entenderam? A chacina de Gaza justifica-se, porque o Hamas, se pudesse, faria coisa pior… mesmo que não faça porque não pode.
Mas foi Fintan O'Toole, filósofo-em-chefe residente do The Irish Times, quem afinal disse o indizível. "Quando expirará o mandato do vitimismo?", perguntou ele. "Quando, afinal, o genocídio nazista dos judeus da Europa deixará de servir de desculpa para livrar o Estado de Israel das barras dos tribunais internacionais e das leis regulares da humanidade?"
(…)
Terminei a semana num daqueles debates do Serviço Internacional da BBC, com um sujeito do The Jerusalem Post, outro da rede al-Jazeera, um intelectual inglês e um Fisk. Dançamos a valsa de sempre em torno da catástrofe de Gaza. Foi eu dizer que é grotesco comparar os 600 palestinos mortos aos 20 mortos israelenses perto de Gaza em dez anos, e os presentes pró-Israel puseram-se a me linchar por sugerir (o que eu não fiz) que só haviam morrido 20 israelenses em todo o território de Israel em dez anos. Claro que morreram centenas de israelenses fora de Gaza em dez anos – mas no mesmo período morreram milhares de palestinos.
Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga "argumentou" que "o exército israelense não é Hitler". Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja.
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