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terça-feira, 21 de abril de 2009

Internet no Brasil

O crescimento do uso da internet no país tem sido bastante noticiado e também propagandeado. Os jornais têm feito matérias sobre a "novidade" da internet banda extra larga via energia elétrica - hoje no Bom Dia Brasil - e principalmente sobre o aumento do uso das redes sociais e twitter, vide Fantástico. Já os políticos aproveitam para mostrar projetos de banda larga grátis, como o da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio e pela inclusão digital do governo federal.

O esforço do governo brasileiro rendeu matéria no El País na semana passada. Fora o lead desnecessário que descreve os brasileiros como um povo comunicativo, o texto mostra bem a realidade brasileira e a superação das previsões pessimistas que alardeavam que o país seria dividido ao meio entre incluídos e excluídos digitalmente. Não contavam com o senso de oportunidade dos brasileiros que lotaram as favelas e periferias de lan houses populares.

A lan house que ninguém mostra

A verdade é que as classes mais pobres conseguem hoje acessar a internet em sua maioria não através dos
programas públicos ou dos computadores nas escolas. A grande responsável por essa inclusão é a lan house popular, espalhada aos milhões pelas periferias e favelas brasileiras com custo muito baixo por hora de uso.

Enquanto o equipamento computador se popularizou, graças ao incentivo fiscal federal, o acesso ainda é, sim, restrito à classe média. Os planos de banda larga ainda são proibitivos para as classes trabalhadoras. Por isso, a opção das lan houses que cobram pelo uso se espalhou e tem feito a felicidade de muitos micro-empreendedores no país.


A pesquisa TIC Domicílios 2007, organizada pelo Núcleo de Informação e Coordenação (NIC.br) ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostrava que as conexões através das lan houses (49%) ganhavam dos acessos em casa (40%) e no trabalho (24%). Mesmo com os computadores mais baratos, a última versão da pesquisa, de 2008, mostra que os centros públicos de acesso pago ainda lideram apesar do pequeno crescimento do uso em casa: 47% em lan houses, 43% em casa e no trabalho 22%.

A pesquisa desse ano traz ainda a variável mais frequente, que representa onde os usuários entrevistados mais utilizaram a internet nos últimos três meses. Nesse caso a casa lidera com 36%, a lan house com 35% e o trabalho atinge 14%.

Aqui é possível ver a mudança de comportamento devido à variável econômica. Os números acima incluem todas as classes. Agora vejamos os números -
de 2008 - por faixa de renda. Para quem ganha até R$ 415 (antigo salário mínimo) a lan house é o local de acesso de 75%, a casa fica com 7% e o trabalho com 2%. O acesso em domicílio só passa a liderar - 42% contra 30%em casa - na faixa que recebe entre R$ 831 e R$1.245.


Internet não é só Orkut

O problema com esse tipo de inclusão é que os usuários não são capacitados para usufruírem ao máximo das redes e enquanto lideramos o uso do Orkut, por exemplo, os medidores das habilidades relacionadas são muito baixos. Enviar um e-mail, por exemplo, é uma habilidade dominada por 26% dos brasileiros. Já baixar e instalar um software, por apenas 12%.

A matéria do Fantástico no último domingo contribuiu para a noção de que inclusão digital é apenas ter um Orkut, ou agora, um Twitter. Transformou rede social em coisa de adolescente que quer arrumar amiguinhos. Quando tocou no uso das redes para o mercado e para o trabalho, foi muito superficial. Perdeu uma ótima chance de mostrar o que realmente é inclusão digital.

E tudo isso só para anunciar seu próprio Twitter - que mesmo assim só conseguiu até hoje cerca de 6 mil seguidores. E, o pior de tudo: do jeito que mostrou o Twitter na matéria, até eu que já tenho um fiquei confusa sobre a utilidade e o uso da ferramenta. Imagina minha mãe e o resto da audiência do programa.

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