Há três anos, em 11 de janeiro de 2006, eu e outros 25 jovens celebramos nossa formatura no Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Por aqueles dias, a Editora Abril selecionava jovens jornalistas para seu programa de Trainee. Sem saber como explicar em uma lauda porque escolhi ser jornalista - explicação que nunca consegui encontrar - decidi escrever um texto nada direto e objetivo. Eu gostei do resultado. A Editora Abril, não.
Três anos depois, a Editora Abril com sua Veja e outras continua aí. E eu, já não estou no mesmo lugar.
Mas ainda gosto do resultado.
Com vocês, Jackeline Mota, formanda de Jornalismo, 2005
Como vim ao mundo com ser humano e não como uma pedra, sou uma eterna mudança. A cada novo saber já não sou mais quem era há um minuto. E também como sou ser humano, e que fique claro mais uma vez, não sou uma pedra, também sou andarilha. No meio do caminho é que não fico (quem faz isso é aquela pedra que eu não sou) e por isso pelo menos um dos meus (curtos) caminhos já está acabando: a faculdade!
Ser humano nasci, mas não como Alice, e meu país não é uma maravilha. Mas as rosas do jardim de Alice já (bem) diziam que quanto mais fofa a terra em que nascemos mais indolentes seremos. Por tanto para mim foi providenciada terra das bem duras, se bem que em zona de mata, lá pelas bandas do morro do cruzeiro, naquela que um dia foi Atenas e hoje, apenas.
Assim como um pequeno príncipe parti de meu pequeno planeta em busca do meu sonho. Não era uma rosa, mas talvez um país um pouquinho mais maravilhoso. E, como o príncipe, fui conhecendo no caminho tanta coisa, que quando alcançar o meu desejo, posso ainda ser príncipe, mas pequeno não serei mais.
Um desses que pelo caminho vi, pareceu-me familiar. Tin-tin (eu, tan-tan) também não temia aventura. Talentoso e perspicaz queria saber de tudo, parecia ser bom repórter. Mas dei por esgotado o que dele aprender quando notei que do trabalho, da labuta, do suor, que era bom, ele não gostava. Não deve ter lido nunca García Márquez, que deixa bem claro que a profissão é para aqueles que têm a coragem não de perseguir o Doutor Malvado, mas de lutar todo dia com palavras, frases e fatos para ver o trabalho ser novamente iniciado assim que ele termina.
Concordando com García Márquez e preservando ainda um pouquinho de Tin-tin, Alice, rosa e até mesmo de pedra, porque afinal em tudo há algo a ser aproveitado, termino um caminho que pensei que seria longo quando olhei lá do meu planetinha, mas agora vejo que foi curto, curto. Outros mil caminhos se mostram e sei que há tempo ainda, mas não se pode esperar, pois sempre haverá estradas à minha frente.
Afinal escolhi um sonho que não é fim em si, mas meio. Não só meio de vida (que de vida ele me é inteiro!), mas meio de ação, mediação e remediação. E neste país onde não sou Alice, sei que o meu sonho terá muito o que remediar. Maravilhas maravilhosas construídas por aviadores, falsários e rainhas, redomas que hoje prendem jardins em terras que não são as suas. Remediar o vermelho de que foi pintado todo um exército de rosas, sem saber porquê, para quê e como. Remediar parece mesmo um grande fim do meu sonho que é meio.
Por que eu escolhi este e não outro sonho? Ora, gente que não é pedra não consegue ter sonhos que acabam, sonhos que endurecem presos dentro de suas formas. Gente que é meio andarilho precisa andar sempre, descobrir lugares novos do outro lado da rua. Gente que é aventureiro precisa sonhar sem medo, tanto de ir quanto de ficar, tanto de desvendar mistérios mundiais quanto batalhar para escrever em quatro linhas sobre a vida inteira de uma pessoa. Gente precisa de gente, para sonhar junto, para ser humano junto, para tirar as pedras de seu lugar. E o meu sonho é um belo meio de se chegar à gente. Afinal, o que mais que gente pode querer?
Nota: Nasci em Leopoldina, Zona da Mata Mineira. A cidade carregou por algum tempo o título de a Atenas da Zona da Mata, por abrigar uma faculdade de Medicina. Hoje, é lar de poucas vagas, uma sociedade ultraconservadora e destino de fim de semana dos milhares de nativos que vivem no Rio de Janeiro.
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